Móvel planejado valoriza o imóvel? Os erros que podem fazer o comprador pedir desconto


Marcenaria costuma ser apresentada como diferencial na venda de casas e apartamentos, mas material inadequado, umidade e falhas de execução podem transformar investimento em argumento para negociação

Cozinha planejada, closet sob medida, painel integrado e marcenaria personalizada costumam aparecer entre os diferenciais destacados na hora de anunciar um imóvel. Em alguns casos, porém, aquilo que deveria agregar valor pode produzir o efeito contrário.

Portas desalinhadas, ferragens desgastadas, móveis estufados, acabamento comprometido e materiais inadequados para ambientes sujeitos à umidade são sinais que podem chamar a atenção do comprador e até entrar na negociação do preço.

A diferença está menos na existência de móveis planejados e mais na qualidade do que foi instalado.

Para Laércio Carlos Marchioni Filho, empresário e especialista em móveis planejados de alto padrão, com mais de 20 anos de experiência no setor, um dos erros mais comuns é avaliar a marcenaria apenas pela aparência. “Duas cozinhas podem parecer muito semelhantes quando estão novas, mas terem estruturas completamente diferentes. É o material usado na parte que o cliente não vê, a ferragem, o acabamento e a execução que vão determinar como aquele móvel estará alguns anos depois”, explica.

A escolha do material ganha ainda mais importância em cozinhas, banheiros e áreas de serviço, onde existe maior exposição à água e à umidade. Marchioni acompanhou a transformação dos materiais utilizados pela indústria ao longo de duas décadas. Ele começou na marcenaria da família ainda adolescente, quando a produção utilizava com maior frequência madeira maciça e compensados, e posteriormente passou a trabalhar com MDF e outros materiais incorporados pelo setor.

Segundo o especialista, não existe necessariamente um material ruim, mas aplicações inadequadas. “Um closet em MDF, por exemplo, pode funcionar muito bem porque é um ambiente com pouca exposição à água. O problema é usar a mesma lógica em uma área sujeita a vazamentos e umidade. Se houver contato prolongado com água, a estrutura pode ser comprometida”, afirma.

Ele explica justamente que utiliza materiais diferentes conforme o ambiente e cita o plywood, equivalente ao compensado naval, como alternativa estrutural empregada por ele em locais mais sujeitos à água.

O que o comprador deve observar

Antes de considerar a marcenaria como um diferencial no preço de um imóvel, alguns sinais ajudam a revelar seu estado de conservação:

• Portas e gavetas: devem abrir e fechar sem atrito, desalinhamento ou folgas excessivas.
• Áreas próximas à água: partes inferiores de pias e bancadas merecem atenção para sinais de inchaço, manchas ou deformações.
• Ferragens: dobradiças e corrediças desgastadas podem indicar tanto tempo de uso quanto componentes de menor qualidade.
• Bordas e junções: descolamentos, frestas e acabamentos irregulares podem antecipar problemas futuros.
• Funcionalidade: móveis extremamente personalizados podem funcionar para o atual proprietário, mas não necessariamente atender às necessidades do próximo morador.

O último ponto cria um paradoxo. Quanto mais personalizado é um projeto, maior pode ser seu valor para quem o encomendou, mas isso não significa que o próximo comprador atribuirá o mesmo valor à solução. Outro fator começa ainda antes da instalação.

Marchioni defende que a marcenaria seja pensada junto com a obra. Em seus projetos, ele relata que trabalhava desde etapas iniciais da construção para definir dimensões, pontos elétricos e hidráulicos de acordo com a posição dos móveis e eletrodomésticos.

“Quando a marcenaria entra apenas no final, muitas decisões importantes já foram tomadas. Se ela é planejada junto com elétrica, hidráulica, mármore e dimensões dos ambientes, conseguimos evitar adaptações e soluções improvisadas depois”, explica.

Essa integração também pode interferir na percepção de qualidade do imóvel. Tomadas mal posicionadas, recortes improvisados para passagem de fios, móveis que dificultam o acesso à hidráulica ou espaços incompatíveis com eletrodomésticos podem revelar que arquitetura, instalações e marcenaria foram planejadas separadamente. E pagar mais não elimina automaticamente esses riscos.

Marchioni relata ter conquistado um cliente após comparar seu próprio método de acabamento com o de uma empresa de preço superior. Para ele, o episódio reforçou uma percepção construída ao longo da carreira: valor e qualidade não podem ser avaliados apenas pela etiqueta. “Preço alto não corrige material inadequado ou execução ruim. Antes de perguntar quanto custou aquela marcenaria, o comprador deveria olhar como ela foi construída, quais materiais foram utilizados e, principalmente, como chegou até aquele momento”, afirma.

No mercado imobiliário, portanto, dizer que um imóvel possui marcenaria planejada pode não ser suficiente para justificar um preço maior.
O que pode efetivamente agregar valor é a combinação entre conservação, funcionalidade, qualidade dos materiais e execução. Quando esses elementos falham, o investimento feito pelo antigo proprietário corre o risco de mudar de lado na negociação: de argumento para valorizar o imóvel para justificativa para o comprador pedir desconto.

Sobre: Laercio Carlos Marchioni Filho é empresário e especialista em móveis planejados de alto padrão, com mais de 20 anos de experiência no setor moveleiro. Atua em todas as etapas da marcenaria, do desenvolvimento à fabricação e instalação, com conhecimento técnico em materiais, ferragens, acabamentos e soluções personalizadas para projetos residenciais e comerciais.

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